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Numa época em que o comércio marítimo para o Brasil florescia, surgiu uma figura de determinação inabalável: Ana Maria Lobo Guimarães (1674-1737). Por meio da rubrica #DoArquivoAoAlgoritmo, resgatamos o rasto desta mulher de negócios que assinava seus documentos como “Ana Maria Loba”.
• De Guimarães para o Porto: Nascida em S. Paio, Guimarães, em 1674, Ana Maria estabeleceu-se no Porto, onde, em 1712, casou, na freguesia de S. Nicolau, com o Alferes Domingos Martins Sampaio.
• Geriu com o seu marido inúmeras companhias mercantis que alcançaram o norte da Europa, o Brasil, África e a Ásia, deixando um legado que perdurou após a sua morte em 1737.
• Irmandade e Generosidade: Como irmã da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, a sua ligação à instituição foi profunda e a sua memória permanece até hoje presente no nosso Arquivo.
Com esta nova rubrica, conseguimos dar rosto e cor a uma sucessão de vidas guardadas que hoje ganham uma nova dimensão digital. Ana Maria já não é apenas um nome num testamento; é uma memória viva da resiliência portuense e da História das Mulheres.
#VOTSF#DoArquivoAoAlgoritmo#PortoHistory#AnaMariaLoboGuimarães
por Alexandra María Silva Vidal | Mar 16, 2026 | Entrevistas | 0 Comentarios

(Archivoz) Como descreveria o encargo de ter responsabilidades num arquivo com mais de 500 anos de história ininterrupta? Qual é a «alma» deste acervo?
(Rui Valente) Assumir funções de arquivista neste arquivo é gerir o que Santo Agostinho designou como um penetrale amplum et infinitum — um santuário profundo onde a identidade institucional e urbana é preservada contra a entropia do tempo. A responsabilidade é, acima de tudo, ontológica: trata-se de operacionalizar uma «Gestão do Esquecimento», garantindo que a memória não seja um depósito passivo, mas uma âncora de historicidade que legitima a ação presente da Misericórdia do Porto.

A «alma» deste acervo reside na sua continuidade absoluta desde 1499. Enquanto outras instituições sofreram ruturas, a SCMP manteve uma produção documental orgânica que espelha o conceito de arkheion de Derrida: o arquivo como lugar de começo e de comando. A alma é a simbiose entre o Direito, a História e a Assistência. É a prova documental do compromisso de séculos dos «homens bons» com a mitigação da miséria, refletida em intrincadas e diferentes séries documentais. É um sistema de informação que permite à instituição transcender a finitude do presente, projetando no futuro a experiência acumulada de mais de meio milénio.
Contudo, para além da sua dimensão jurídica e administrativa, neste arquivo sentimos o pulsar da humanidade que sobreviveu ao esquecimento através do papel. Este acervo é um repositório onde se preserva o eco de milhões de vidas que, de outra forma, teriam sido apagadas pela poeira da História. É nos registos dos enfermos que encontraram alento nas enfermarias do Hospital de Santo António, nos «pobres envergonhados» que viram a sua dignidade preservada pelo sigilo da caridade, nos «presos da relação» que receberam amparo jurídico e material e nas crianças que receberam educação que reside o coração desta casa. Este arquivo não guarda apenas papéis; guarda o testemunho de um humanismo resiliente que transformou o sofrimento individual numa memória coletiva de cuidado. Estar embrenhado nestes “papéis” é ter o privilégio e a gravidade de tocar na fragilidade e na dignidade do «outro», garantindo que a voz dos que sofreram e a mão dos que serviram continuam a ser o alicerce moral onde ancora essa “alma”.
(Archivoz) O arquivo está instalado num local com uma carga arquitetónica e histórica fortíssima (Casa da Prelada). De que forma o espaço físico da Casa da Prelada influencia o trabalho de preservação e a experiência dos investigadores?
(Rui Valente) A instalação na Casa da Prelada, uma obra de Nicolau Nasoni, legada à instituição nos primórdios do século XX, representou muito mais do que uma simples mudança de endereço; foi o culminar de um projeto de décadas para resgatar a memória da Santa Casa de um estado de precariedade. Até à inauguração deste novo centro em maio de 2013, o Arquivo Histórico debatia-se com condições espaciais e técnicas desajustadas, que colocavam em risco a integridade de um património com mais de 500 anos. Durante séculos, o núcleo central do acervo esteve confinado ao edifício da Misericórdia na Rua das Flores, onde a instituição se fixou por volta de 1550. Este espaço, localizado no primeiro andar do edifício, não chegava a atingir os 25 metros quadrados e tinha de cumprir funções concomitantes de depósito, gabinete de trabalho, sala de consulta para investigadores e caixa-forte, albergando dois cofres de segurança.
A reabilitação da Casa da Prelada permitiu inverter este cenário. Hoje, o espaço dita a funcionalidade: o acervo beneficia de sistemas específicos de proteção contra incêndio, controlo rigoroso de temperatura e humidade, e segurança reforçada com acesso biométrico. Para o investigador, a experiência foi transfigurada. O que antes era uma consulta difícil em espaços exíguos, é hoje uma imersão num laboratório de história viva, onde a monumentalidade barroca de Nasoni convive com uma infraestrutura moderna e com uma agradável área verde envolvente, dignificando o ato da investigação e de labor dos colaboradores aqui afetos.
Neste contexto, cumpre-me realçar o empenho do Senhor Provedor da Misericórdia do Porto, Professor Doutor António Tavares, que teve e tem uma visão estratégica para a área da Cultura da instituição que a elevou a condições inauditas. O Senhor Mesário do Culto e Cultura, Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva tem sido um pilar de autoridade científica e humana que muito nos auxilia. A Sra. Eng.ª Paula Aleixo, Diretora da Casa da Prelada, com a sua ação dedicada e resiliente, é um garante de que o nosso Arquivo será sempre bem defendido. Por fim, presto homenagem à memória da Dra. Alice Azevedo, que guiou este Arquivo Histórico durante três décadas e cujo falecimento nos privou de uma presença humana extraordinária. Para mim, ela foi sempre um farol de saber e uma Amiga de todas as horas. Sinto profundamente a sua falta e sinto todos os dias a responsabilidade de fazer jus ao trabalho pelo qual tão nobremente pugnou.
(Archivoz) Sendo a Santa Casa uma instituição católica, que importância tem este arquivo para o estudo da cidade do Porto?
(Rui Valente) O arquivo da Santa Casa da Misericórdia do Porto reflete um sistema de informação complexo que espelha a própria evolução da cidade. Sendo a Misericórdia a instituição que mais profundamente se entranhou no tecido social portuense, o seu acervo constitui o pilar estruturante para a compreensão da sociogénese do Porto, funcionando como um «segundo arquivo municipal» devido à sua densidade e à transversalidade da informação que preserva. Embora a instituição tenha uma matriz católica inegável e se fundamente nas catorze Obras de Misericórdia, o seu arquivo extravasa largamente o âmbito devocional para se tornar um repositório exaustivo da história da saúde, da economia, do urbanismo, das mentalidades e da educação.
No domínio da saúde e da ciência, este arquivo é insubstituível para estudar a evolução da medicina e da psiquiatria em Portugal. A Misericórdia do Porto gere unidades de saúde desde 1521. Em meados de 1610, o Hospital D. Lopo d’Almeida abriu as suas portas aos primeiros doentes e serviu a cidade do Porto, como principal hospital, durante dois séculos, até à construção do Hospital de Santo António, que recebeu os primeiros doentes em 1799 e o Hospital Conde de Ferreira, inaugurado em 1883, o primeiro hospital construído de raiz no país para o tratamento de patologias do foro psiquiátrico. O acervo documenta não só a prática clínica e o ensino da medicina nestas instituições, mas também a transição para modelos de assistência técnica e científica que marcaram a modernidade portuense.
A importância do arquivo estende-se à história da educação e da inclusão social, áreas onde desempenhou um papel inovador, sendo possível reconstruir o percurso pioneiro no ensino de surdos e de cegos em Portugal, transformando a caridade tradicional em capacitação real. Da mesma forma, a documentação relativa aos diversos colégios e recolhimentos permite estudar a vida e a formação de gerações de órfãos e órfãs, revelando como a Misericórdia geria não apenas a sobrevivência física, mas o ensino de ofícios e a integração social destas crianças.
Esta abrangência revela-se também na documentação sobre a gestão de vastos patrimónios imobiliários e na rede de legados que financiaram a assistência durante séculos. Através do registo da interação entre a elite governante e os estratos mais frágeis da sociedade, o arquivo permite reconstruir as redes de sociabilidade e o exercício do poder local.
(Archivoz) Migrar dados de séculos para um sistema normalizado não é fácil. Quais foram os maiores obstáculos técnicos na implementação deste arquivo na plataforma AtoM?
(Rui Valente) A transição para o sistema AtoM (Access to Memory) e o complexo processo de normalização do acervo da Santa Casa da Misericórdia do Porto foi o resultado de parcerias estratégicas com o meio académico, especificamente com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e o CEPESE (Centro de Estudos de População, Economia e Sociedade). A colaboração com a FLUP, sob a orientação científica das Professoras Doutoras Fernanda Ribeiro e Inês Amorim e com a participação de diversas investigadoras, permitiu aplicar uma abordagem sistémica fundamentada na Ciência da Informação, onde o foco reside na acessibilidade e na compreensão do contexto orgânico-funcional da informação.
Neste processo, um dos maiores obstáculos técnicos foi a migração e normalização de descrições heterogéneas acumuladas ao longo de séculos, exigindo a aplicação rigorosa das normas internacionais ISAD(G) para a descrição arquivística e ISAAR(CPF) para a criação de registos de autoridade. Foi necessário mapear sistemas de classificação históricos – como os inventários de cartorários de renome, nomeadamente o Padre Luís de Sousa Couto e Querubino Henriques Lagoa – garantindo que o novo sistema digital mantivesse a interoperabilidade através de identificadores alternativos. Esta técnica permitiu que investigadores continuem a localizar documentos através de cotas antigas citadas em bibliografia de referência, preservando a ligação vital entre o passado e a investigação contemporânea.
Simultaneamente, o projeto beneficiou da experiência do CEPESE, numa intervenção que decorreu entre 2016 e 2022. Esta equipa enfrentou o desafio logístico de tratar massas documentais dispersas e, muitas vezes, em precário estado de conservação. A intervenção incluiu a higienização, o reacondicionamento em caixas acid-free e o tratamento de documentação, resultando na criação de bases de dados robustas preparadas para a migração para a plataforma AtoM.
Graças a este esforço conjunto, o arquivo tornou-se ainda mais um sistema de informação dinâmico, onde a precisão técnica da descrição multinível serve de suporte à inteligência organizacional e à preservação da memória coletiva.
(Archivoz) Como se equilibra a necessidade de exibir documentos raros com a obrigação de protegê-los da degradação?
(Rui Valente) O equilíbrio entre a visibilidade pública e a salvaguarda de documentos raros é sustentado pelo conceito de «Arquivo-Serviço», que marca a transição de uma lógica puramente custodial para um paradigma onde o arquivo é entendido como um sistema de informação dinâmico ao serviço da cultura e da gestão.
A estratégia de preservação da Misericórdia do Porto validada pela Mesa Administrativa, prioriza o que denominamos «preservação pelo acesso». Esta filosofia reconhece que a melhor forma de proteger o suporte físico original — muitas vezes vulnerável à acidez do papel, ao ataque biológico ou ao desgaste — é restringir o seu manuseio direto ao mínimo indispensável, tentando colmatar com a sua máxima disponibilidade e visibilidade através de outros meios. Neste contexto, a desmaterialização e a digitalização de alta fidelidade não devem ser meras ferramentas de difusão, mas sim o pilar central da nossa política de salvaguarda. Ao disponibilizarmos inventários em open access e cópias digitais com definição frequentemente superior à perceção da visão humana, permitimos que a exploração intelectual ocorra sem qualquer atrito físico sobre a peça histórica.
Quando a exibição física é estritamente necessária, seja em contexto museológico ou em projetos de investigação específica, aplicam-se normas rigorosas de conservação preventiva, seguindo os protocolos internacionais e as normas ISO relativas ao armazenamento e exposição de materiais de arquivo e biblioteca. Isto implica um controlo da iluminância para evitar a fotodegradação e o desvanecimento de pigmentos, bem como a manutenção de parâmetros de estabilidade higrotérmica, com níveis controlados de humidade relativa e temperatura, mitigando riscos de oxidação e proliferação de microrganismos. A proteção, na nossa visão técnica, não é sinónimo de ocultação ou isolamento, mas sim da gestão inteligente e protocolada do acesso. Através destas boas práticas, asseguramos que a memória da Misericórdia seja plenamente consultável hoje sem comprometer a sua integridade para os próximos 500 anos.
(Archivoz) Qual é o grande projeto que o Dr. Rui Valente ainda gostaria de ver concretizado no arquivo?
(Rui Valente) O desígnio maior é a consagração de um modelo de Gestão de Informação totalmente integrado e pós-custodial. O objetivo é que o Arquivo deixe de ser visto apenas como o guardião do «velho» para ser um motor de inteligência organizacional.
A aposta na digitalização é crucial. Muito ainda há a fazer, mas aumentar o ritmo desta é permitir o futuro arquivístico. A política almejada foca-se em criar representações digitais de alta-fidelidade e metadados tão ricos que o investigador raramente precise de tocar no original. O arquivo passa a ser o sistema de informação que disponibiliza o conteúdo, e não apenas a estante onde o pergaminho repousa.
Gostaria de ver concluída a integração sistémica de todos os núcleos documentais das unidades dependentes, com especial enfoque no vasto arquivo do Hospital Conde Ferreira, tornando-o totalmente acessível à comunidade científica internacional.
Um projeto de futuro essencial é também acompanhar a evolução da utilização da inteligência artificial para o reconhecimento de escrita manual antiga (HTR – Handwritten Text Recognition), que permite a pesquisa integral em texto livre dentro dos documentos antigos. Esta atomização da busca, através do cruzamento de informação, transformará séculos de informação complexa e muitas vezes dispersa num manancial integrado.
Em jeito de balanço final, creio que a nossa missão transcende a mera custódia de documentos; somos os guardiões de um humanismo resiliente que define a essência da cidade. O meu compromisso é, portanto, honrar a continuidade absoluta desta memória institucional, garantindo que cada inovação tecnológica e cada decisão técnica sirvam para fazer jus ao trabalho abnegado de todos os que me antecederam e à dignidade daqueles cujas vidas — fossem de benfeitores ou de necessitados — aqui ficaram registadas. Sinto o peso e a honra desta herança de mais de meio milénio e reitero a minha vontade inabalável de alcançar estes objetivos, transformando este acervo num património vivo e acessível. Este arquivo não é apenas o registo de um passado glorioso; é um alicerce fundamental que nos obriga a agir com excelência no presente para projetar o futuro, assegurando que o testemunho da caridade e do cuidado permaneça um farol de humanidade para as gerações vindouras.

Do real imposto na carne e vinho para as obras novas do hospital por tempo de mais hum anno
Dom João por graça de Deus rey de Portugal e dos Algarves d’aquem e d’alem mar em Africa senhor de Guine e etc. Faço saber que o provedor da comarca de Viana e os irmaos da Meza da Santa Caza da Mizericordia da villa de Barcellos em prezentarao por sua petição que eu fora servido conceder lhe hum real imposto nas carnes dos açougues e vinhos acostumados que se venderem na dita vila e termos e coutos delle pera a feitura do novo hospital que se fazia na dita villa por tempo de dous anos para as ditas obras as quais se continuavao com todo o cuidado; porem e senão podiao findar com a imposição dos ditos três anos e não hera rezão sendo obra tao pia se deixou de concluir e a perfeiçoar. Pedindo me lhe fizessem de conceder mais hum anno de tempo para lançarem a imposição referida para se acabar a dita obra. E visto o que allegao e informação que me destes, Hey por bem fazer merce dos três que já lhes concedi possao lançar hum real imposto nas carnes deste açougue e vinhos atavernados que se venderem na dita vila e termo e coutos delle para se acabar a obra de perfeita do dito hospital não entrando a imposição de lagar por estar aplicada para as obras do Bom Jesus do dito lugar e vos mando que no fim do anno tomeis conta de hua nova impoziaçao cumprindo esta ordem como nella se contem. El Rey Nosso Senhor o mandou por seu expicial mandado pellos dito D, Affonso Sottomaior e Gregorio Pereira fidalgo de seu conselho e seus desembargadores do paço. Manoel da Silva Pereira a fez em Lixboa a 22 de fevereiro de 715.
Bem-vindos a mais uma rubrica “Documento em Destaque”.
Estamos em plena época barroca, em Portugal reina D. João V (Lisboa, 22 de outubro de 1689 – Lisboa, 31 de julho de 1750), conhecido como “o Magnânimo”. O seu reinado coincide com o apogeu do Barroco em Portugal e com a chegada massiva de ouro do Brasil, o que influenciou diretamente a administração do reino e o apoio a instituições como a Misericórdia de Barcelos.

O documento em destaque que apresentamos, transcrito exatamente como o português do século XVIII, representa um testemunho valioso da resiliência e da importância social da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos e do seu “Novo Hospital”.
Trata-se de uma provisão real de D. João V que autoriza a continuidade de um mecanismo de financiamento essencial para a conclusão das obras do hospital.
Revela-nos a preocupação da Mesa da Misericórdia de Barcelos e do Provedor da comarca de Viana em não deixar inacabada uma “obra tão pia”. A construção de um novo hospital em Barcelos não era apenas um projeto arquitetónico, mas uma resposta à necessidade de melhorar a assistência aos pobres e enfermos da vila, seus termos e coutos.
Um dos pontos mais fascinantes do documento é a descrição do modelo de financiamento. Para sustentar a obra, o Rei concedeu o direito de lançar um “real imposto” sobre bens de consumo quotidiano: as Carnes dos açougues (matadouros) e vinhos atavernados (vendidos a retalho).
Este imposto era aplicado não só na vila, mas também nos seus arredores, demonstrando como a economia local estava intrinsecamente ligada ao suporte das instituições de caridade.
O documento sublinha o rigor administrativo da época. A prorrogação concedida por mais um ano (somando-se aos três anos anteriores) veio acompanhada da obrigação de, no final do prazo, ser tomada conta da “nova imposição”. Esta prestação de contas garantia que os recursos das populações fossem efetivamente aplicados na “perfeita” conclusão do hospital.
Este documento, datado de 22 de fevereiro de 1715, é uma peça fundamental para a história da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, pois documenta um momento crítico de expansão e consolidação da sua assistência hospitalar no início do século XVIII.
É, em suma, uma prova da vitalidade da Misericórdia de Barcelos e do reconhecimento da Coroa Portuguesa face ao papel indispensável que esta instituição desempenhava na saúde pública e na caridade cristã.
Até breve!
SCM Barcelos, 04 MARÇO 2026
Saiba mais em https://www.misericordiabarcelos.org/…/medicacao-ha…/

No século XVIII, a farmácia em Portugal — então denominada “botica” — era um ofício artesanal e místico. Num mundo onde o galenismo (a teoria dos humores) ainda dominava, a modernização era lenta e as preparações eram feitas manualmente, muitas vezes no silêncio dos mosteiros, sob a rigorosa fiscalização do físico-mor. O grande ponto de viragem ocorreu com a Reforma Pombalina (1772) e a publicação da primeira farmacopeia oficial em 1794, que começou a afastar as poções mágicas em favor da ciência.
Antes da revolução química de Antoine Lavoisier (1743–1794), o “Pai da Química Moderna”, os conventos eram os grandes centros de saber farmacêutico. Obras como a Pharmacopea Lusitana (1704), de D. Caetano de Santo António, mostram como a tradição galénica se começava a adaptar aos novos modelos científicos.
Ao explorarmos o Livro de Receituário da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos (1836-1840), encontramos remédios fascinantes que misturam botânica e química antiga:

Ora aqui temos o Óleo de Amêndoas Doces – um clássico da hidratação e nutrição. Já naquela época era essencial pelas suas propriedades anti-inflamatórias e versatilidade, servindo de base para inúmeras fórmulas cosméticas e curativas.
A Raiz de Alteia (Althaea officinalis L.), reconhecida na Farmacopeia Portuguesa e Brasileira, era o “xarope” da época. Atuava como demulcente para acalmar a tosse seca e irritações da garganta ou do estômago. Indicada para tosse seca, irritação da mucosa oral/faríngea e inflamações gástricas.
E que tal uma Pomada de Saturno? Na alquimia, “Saturno” era o código para o chumbo. Esta pomada (acetato de chumbo misturado com banha de porco) era usada para afeções cutâneas. Hoje sabemos da toxicidade do chumbo, mas na altura era um pilar da farmácia galénica.
Era preparada com acetato de chumbo (anteriormente conhecido como sal de saturno ou cerusa) misturado com uma base de pomada (geralmente gorduras como banha de porco ou bases cerosas). Dá para acreditar?

E, já agora, experimentamos um pouco de Quinino?
Um verdadeiro marco na medicina. Foi um dos primeiros medicamentos “alvo”, atacando diretamente a causa da malária e salvando inúmeras vidas nos hospitais. Essencial para tratar a malária, tornando-se um dos primeiros “medicamentos específicos” que realmente atacavam a causa da doença. Sim, acreditem! Havia malária em Portugal!!!!

E para terminar vai um cataplasma de linhaça (Linum usitatissimum)?
O remédio caseiro por excelência. Aplicado quente sobre a pele, este preparado de Linum usitatissimum era o alívio imediato para dores articulares, tendinites e inflamações, muitas vezes potencializado quando misturado com gengibre ou aplicado com calor. Vamos experimentar?
Até breve, com mais curiosidades do Arquivo Leonor!
Fonte: Livro de receituário para doentes do hospital da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos – (1836-1840)
Disponível em: https://atom.misericordiabarcelos.pt/index.php/registo-de-receituario-para-doentes-do-hospital-1836-1840/edit#identityArea
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